Poucos medicamentos transformaram tão rapidamente a cirurgia plástica quanto os novos tratamentos para perda de peso, como o Mounjaro. Pela primeira vez, existe uma ferramenta realmente eficaz para controlar a obesidade e promover um emagrecimento significativo em grande escala. O reflexo dessa mudança já é evidente nos consultórios.
Ao contrário do que muitos imaginam, o Mounjaro não reduziu a importância da cirurgia plástica. Na prática, tornou suas indicações mais precisas.
Durante anos, muitos pacientes procuravam a lipoaspiração quando o problema principal era o excesso global de peso, e não a gordura localizada. Embora o procedimento pudesse melhorar o contorno corporal, ele nunca tratou a causa do sobrepeso.
Com os novos medicamentos, grande parte desses pacientes consegue atingir um peso saudável antes de pensar em cirurgia. Assim, diminuiu a procura pela lipoaspiração como alternativa ao emagrecimento, reforçando sua verdadeira finalidade: remodelar áreas de gordura localizada resistentes à dieta e aos exercícios.
Essa mudança trouxe outro desafio. À medida que mais pessoas perdem grandes quantidades de peso, cresce também a incidência de flacidez da pele. Quando o emagrecimento é rápido, principalmente após anos de obesidade, a pele nem sempre acompanha essa redução, gerando excesso de tecido no abdômen, braços, coxas, flancos e mamas.
Como consequência, aumentou a procura por cirurgias reparadoras, como abdominoplastia, braquioplastia, lifting de coxas e procedimentos para corrigir a flacidez das mamas.
As mamas merecem atenção especial. Como parte significativa do seu volume é composta por gordura, a perda de peso costuma reduzir esse volume, deixando-as menores, mais vazias e com maior queda. Nesses casos, pode haver indicação de mastopexia, associada ou não a implantes, para restaurar a forma e a harmonia corporal.
A boa notícia é que nem toda flacidez é inevitável. Exercícios de força, ingestão adequada de proteínas e acompanhamento nutricional ajudam a preservar a massa muscular, que funciona como sustentação para os tecidos. O resultado costuma ser um contorno corporal melhor e menor flacidez.
Por isso, o Mounjaro deve ser encarado como parte de um tratamento global da saúde. O medicamento facilita a perda de peso, mas não substitui alimentação equilibrada, atividade física e mudanças permanentes no estilo de vida.
Sob a ótica da cirurgia plástica, essa transformação foi extremamente positiva. Hoje, é cada vez mais comum receber pacientes que já emagreceram, adotaram hábitos saudáveis e agora apresentam alterações que realmente dependem de correção cirúrgica.
Em outras palavras, a cirurgia voltou a cumprir seu papel principal: tratar aquilo que dieta, exercícios e medicamentos não conseguem resolver. Isso torna as indicações mais assertivas, melhora a seleção dos pacientes e favorece resultados mais naturais e duradouros.
O Mounjaro não eliminou a necessidade da cirurgia plástica; apenas mudou seu momento de atuação. Reduziu procedimentos realizados em pacientes cujo principal problema era o excesso de peso e ampliou a procura por cirurgias reparadoras após o emagrecimento.
Estamos diante de uma mudança de paradigma. A cirurgia plástica deixa de ser vista como alternativa para emagrecer e passa a representar a etapa final da transformação corporal, refinando o contorno e corrigindo a flacidez residual.
Quem mais se beneficia dessa nova realidade é o paciente, que chega ao procedimento em melhores condições clínicas, com expectativas mais realistas e indicações mais precisas. Talvez essa seja a maior contribuição do Mounjaro para a cirurgia plástica: não substituir o bisturi, mas garantir que ele seja utilizado apenas quando realmente necessário.